Esqueça “Roger versus Renato”: o Grêmio de 2017 não será o de 2016 por causa da metodologia de treinos

Foto: Lucas Uebel (Grêmio)

Foto: Lucas Uebel (Grêmio)

Esqueça o debate “Roger versus Renato“. Ele é infrutífero, porque traz consigo a representatividade de cada uma das figuras no imaginário do torcedor. Realmente, não há como comparar o lateral-esquerdo (por mais que tenha sido campeão na década de 90) com o maior ídolo da história do clube, autor de dois gols na final do Mundial de 1983. E esta idolatria aumentou ainda mais quando, de fato, quem conquistou o título da Copa do Brasil foi o segundo – enquanto o primeiro acabou eliminado precocemente em Gauchão, Libertadores e Copa do Brasil do ano anterior. Contudo, não podemos ignorar que a mecânica de jogo apresentada nas finais contra o Atlético-MG vinham sendo trabalhadas pelo primeiro. Nem devemos omitir os reparos necessários feitos pelo sucessor. Para auxiliá-lo neste exercício de compreensão para entender porquê o Grêmio de 2017 não consegue repetir o mesmo futebol de 2016, iremos omitir os nomes dos treinadores. Foque na metodologia de trabalho de ambos, independente da vida pregressa como atleta. Mal comparando, é como se sua banda preferida de rock trocasse o guitarrista. Ao invés de um instrumentista dedicado aos detalhes, fã de música clássica e solos extremamente ensaiados à exaustão, ela passasse a contar com um gênio do improviso, afeito a ‘jam sessions’. Nenhum dos dois é ruim, apenas trabalham de maneira diferente. Logo, o resultado será diferente.

– Confira treinamento de pré-temporada do Grêmio em 2016 (a partir do minuto 51):

Os treinamentos de futebol nada mais são do que o ensaio de uma banda. É nele que os atletas irão repetir ações, a fim de memorizá-las (mesmo que de maneira inconsciente) para reproduzir no jogo oficial. De maio de 2015 a setembro de 2016, os jogadores do Grêmio realizaram treinos setorizados – ou seja, recortes de uma partida de futebol, como o recuo dos volantes e o avanço dos laterais para iniciar uma transição da bola desde a defesa para o ataque; ou então, a ultrapassagem dos laterais, com o afunilamento dos meias, para que possam ingressar na área no momento de um cruzamento rasteiro que se transformará em finalização. Tudo que parecia genialidade dos jogadores (como o gol de contra-ataque contra o Atlético-MG no Mineirão, trocando passes desde a zaga) não passava de algo ensaiado à exaustão no CT Luiz Carvalho. Desde setembro de 2016 até agora, o enfoque gremista tem sido trabalhar a conclusão a gol dos jogadores de frente, o posicionamento dos defensores na bola parada e a saída rápida pelos lados do campo através de cruzamentos para a área. Na reta final de 2016, o casamento se deu perfeitamente, já que os fragmentos trabalhados anteriormente foram aprimorados pelo novo modelo de treinamento. Agora, como deixou de trabalhar triangulações, infiltrações e tabelamentos, o Grêmio passou a executar um jogo mais quebrado, que busca muito mais os lados do campo do que o meio. Prova disso é o quanto Léo Moura e Ramiro tornaram-se importantes, em detrimento à queda de produção dos volantes e meias em relação a eles próprios na temporada passada (Luan, por exemplo). Além disso, treinamentos coletivos e “rachões” viraram muito mais recorrentes a partir deste ano.

– Confira o treino semelhante ao de 2016, mas durante pré-temporada 2017 (minuto 34):

É claro que os desfalques, tantas vezes utilizados como desculpa, ajudaram a acentuar as dificuldades da equipe em reproduzir o mesmo futebol. Mas como explicar que, em 2016, Jaílson executava tal qual a função de Walace ou Maicon quando estes estavam suspensos ou lesionados, e neste ano não consegue ser nem sombra daquilo que apresentou? Outra pergunta que faço é sobre quem é melhor: Ramiro ou Giuliano? Creio que a convocação de Giuliano por Tite fala por si só, mas nem por isso Ramiro deixou de executar com maestria a mesma função de seu antecessor. É óbvio que, com atletas de características diferentes, a mutação é mais grave. O fato de Bolaños ter substituído Douglas, por exemplo, faz com que o time perca qualidade na posse de bola, mas ganhe poder de fogo ofensivo. Entretanto, é preciso notar que os treinamentos a que os substitutos (Michel, Léo Moura, etc) estão sendo submetidos, são completamente diferentes. Logo, é absolutamente natural que não executem o mesmo comportamento em campo de outrora. Sendo assim, fica fácil explicar: o Grêmio de 2017 não será o de 2016. Isso é um decréscimo? Neste momento, enquanto o time patina contra adversários mais frágeis no Gauchão, parece que sim. Contudo, o Tricolor pode se tornar uma equipe ainda mais vibrante e competitiva para a Libertadores. Não há como prever o futuro. Só o tempo dará a resposta se o punk rock cairá melhor aos ouvidos gremistas do que o rock progressivo de antigamente.

1 Comentário

  1. Emerson 23 de março de 2017 Reply

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